Na área de abrangência do projeto, agricultores(as) familiares(as) estão consolidando uma rede colaborativa que tem sido importante para o avanço do Projeto Restaurar. A parceria com o viveiro do Centro Vianei transformou a coleta e a troca de sementes em uma estratégia eficiente de fornecimento de propágulos para a restauração florestal, conservação e preservação do patrimônio genético regional.
Semanalmente, durante o trabalho de campo realizado nos Projetos de Assentamento (PAs) e na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Fazenda Araucária, a equipe técnica também realiza coleta de sementes de nativas que encontra em locais da região onde identifica espécies de interesse para o projeto.
Além disso, após orientação, agricultores familiares realizam coleta em suas próprias áreas e encaminham o material diretamente ao viveiro, fortalecendo o fluxo contínuo de espécies nativas.

De acordo com o técnico agrícola do Projeto Restaurar, Thiago Liz Lopes, o trabalho de coleta segue a identificação prévia de árvores matrizes, selecionadas por suas características e potencial de produção de sementes. “Quando identificamos essas matrizes, monitoramos para que, quando estejam em fase de frutificação, possamos coletar as sementes. Algumas têm um ciclo muito rápido e nem todas as espécies frutificam na mesma época”, explica.
Ele acrescenta ainda que, durante as visitas às propriedades, a equipe também observa características morfológicas das plantas. “Quando estamos indo aos PAs e coletamos sementes, também identificamos aquelas árvores, com um porte adulto interessante, que podem servir como referência para futuras coletas”, acrescenta.
É necessário que o exemplar apresente fuste reto e cilíndrico, copa bem formada, equilibrada e vigorosa, além de boa sanidade geral. A preferência é por indivíduos de grande porte (altura e DAP), com casca sadia, ausência de pragas ou doenças e com alta produção de frutos e sementes.
“O envolvimento dos produtores está fazendo diferença para o projeto, tanto na produção de mudas quanto na conservação do patrimônio genético da região”, ressalta Tamires Manoel Matias, técnica do Projeto Restaurar.

O intercâmbio não se restringe às espécies prioritárias do projeto, como a Araucaria angustifolia (araucária), a Ocotea porosa (imbuia) ou a Ocotea catharinensis (canela-preta). O viveiro recebe uma diversidade significativa de espécies nativas, especialmente frutíferas.
O modelo adotado pela maioria das famílias com o viveiro é o escambo de material genético. Essa é uma prática alinhada com a permuta de sementes por mudas e os doadores escolhem as espécies que desejam receber de volta. Alguns preferem aguardar o desenvolvimento de mudas originadas de suas próprias sementes, ainda que o processo demande mais tempo. Outros optam por mudas já disponíveis no viveiro, conforme a sua necessidade.
Thiago explica que a coleta não segue um calendário fixo justamente porque o ciclo de frutificação varia entre as espécies. “Conforme vamos identificando as espécies em frutificação, realizamos as coletas. No mínimo um dia por semana é destinado para isso”, afirma.
Entre as espécies mais procuradas está a bracatinga (Mimosa scabrella), impulsionada pelo valor econômico do mel de melato. O produto é resultado da interação entre a árvore e a cochonilha, sendo coletado pelas abelhas e amplamente valorizado no mercado. Desde 2021, o mel de melato da bracatinga possui selo de Identificação Geográfica na modalidade Denominação de Origem, certificação que abrange a região de atuação do Projeto Restaurar.
Enquanto o viveiro registra a movimentação de entrada e saída de sementes e mudas, o engenheiro florestal Luran Monteiro Muzeka atua na análise técnica das áreas. Ele realiza o mapeamento das demandas ecológicas específicas, identificando, por exemplo, a necessidade de espécies pioneiras para áreas mais abertas, de espécies tolerantes à sombra para estágios mais avançados de regeneração ou de incremento das populações-alvo. Em contato com a agrônoma Danúsia Vieira, que também é da área técnica do Restaurar, com base nesses relatórios, é determinada a destinação das mudas.
Na prática, o viveiro do Centro Vianei opera como um elo estratégico entre a oferta de sementes, o interesse produtivo dos agricultores e as metas ambientais do Projeto Restaurar. Ao alinhar disponibilidade, demanda ecológica e engajamento comunitário, o sistema reduz custos, minimiza falhas de plantio e acelera o avanço das ações de restauração. “Todo esse movimento de coleta e troca tem se mostrado um trabalho muito positivo”, acrescenta Thiago.
De acordo com o engenheiro agrônomo e coordenador geral do Projeto Restaurar, Natal Magnanti, a ideia é que o viveiro permaneça ativo e com esse mesmo sistema de troca de sementes e mudas mesmo depois que todas as etapas do projeto tiverem sido cumpridas. “Entendemos que este vai ser um legado tão importante quanto as áreas restauradas, para que esse movimento de conservação do patrimônio genético florestal regional continue”, afirma.